À MARGEM DO RIO

eu estive assoberbado nos últimos dias
e tropecei no meu próprio verbo
corri sem destino
falei sem pensar
sentei à margem do rio
e o deixei passar

não

eu quis que o rio parasse
veja só que audácia a minha
eu quis que o rio parasse

nada faz um rio parar
nada faz um rio deixar de ser o que ele é

um rio

queira você ou não
um rio
vai ser sempre
um rio
e nada
mais

eu estive assoberbado nos últimos dias
mas porque
eu ainda não compreendi
o que eu estou fazendo
aqui
UMA SAÍDA À SÓCRATES

levei a vida toda
até aqui
para entender que da vida
eu não entendo
é nada
nem levo dela
coisa alguma
quiçá esta armadura
que venho lustrando
desde o dia em que me tornei
maduro

28 x 29

vinte e oito vezes
eu lhe disse
que não dá mais
vinte e nove
você me pediu
para tentar outra vez
SONETO DO SILOGISMO

Falso
verdadeiro
verdadeiro
falso

Verdadeiro
falso
falso
verdadeiro

Falso
verdadeiro
falso

Verdadeiro
falso
verdadeiro
O FIM DO DIÁLOGO

Quando no meio da mais singela palavra
acabam
os teus créditos
DIAS ASSIM

Hoje o dia amanheceu nublado.
Mesmo antes de olhar pela janela
eu já sabia das nuvens
pela forma que iam tomando meus pensamentos.
Então tomei banho
escovei os dentes
fechei a porta da frente e o dia seguiu.
Pois são quatro horas da tarde
e da minha parte o sol ainda não apareceu.
ACASO

E se com todos os meus erros
no final
der tudo certo
não quero nada não
quero apenas ser poesia

porque não me basta ser o que tenho
eu preciso é ter o que sou
eu faço letras
mas também faço números e versos

me dê uma caneta
que te devolvo prontinho o universo
a chuva cai sem vontade
numa tarde quase incerta
entra pela janela
um ar solene de solidão

fica assim parado
sem dizer nada
como se os dias e as horas
nada quisessem de mim

o seu silêncio perturba
e faz parar o tempo