Domingo, 6 de Julho de 2008

AÇÃO DO TEMPO

Alguns anos depois, a tatuagem de coração no braço havia desbotado.

PAIXÃO FUGAZ

Suspirou. E nunca mais a viu na vida.

DOMINGO

Olhava pela janela. "Ando cansado de ouvir minha voz calada", pensou.

DE HOMEM PARA HOMEM

Viver é gozar com o tempo, meu filho.

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

manhã fria
o sol surgindo
a lua ainda

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

noite fria
sobre o criado-mudo
a caneca de chá

Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

FESTA LITERÁRIA

Antes de sair, foi ao dicionário retocar o verbo.

OLHO

Avaliou detalhadamente o próprio rosto. Deu pela falta de um olho. Foi dormir intrigado. No dia seguinte, acordou enxergando normalmente.

Domingo, 22 de Junho de 2008

TUDO

Um café às nove no Balneário vazio. Exatamente o que não existe. Triste por não mais do que quinze minutos. Perdi-me olhando para o céu. As horas passaram num segundo. Cheguei depois, a pé e bêbado. Saí da linha que eu mesmo tracei. Nada que fugisse do que sempre foi. Depois de tanto tempo procurando o isqueiro, lembrei que há um ano deixei de fumar. Botei tudo pra dentro da mala, tudo o que sempre mantive guardado. E fechei.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

SILÊNCIO

A lua é tão grande
que arde

Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

SUSPIRO

O frio era tanto
que entrava pelo meio
das palavras

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

A chuva
sorri para o céu
quando vira chão

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

O NOVO

Há algo de novo
nos passos
sobre a Riachuelo

Há algo de novo
sobretudo nos passos
que se foram

Há algo de novo
na ausência

Posto que essência
do recomeço

Sábado, 17 de Maio de 2008

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

CURIOSIDADE

O sol espreme o olho
e espia pela fresta da janela

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

LONGE

Longe como a flor no meio do caminho
como um pingo vem caindo devagar
longe como vive um passarinho
como os dias um a um em frente ao mar

Longe como é a casa grande da senzala
como a alma dos que vivem pra sonhar
como a janela aberta de uma sala
como amantes que saíram pra jantar

Como as palavras esquecidas do profeta
como um texto que não pode emocionar
como o sol que vai nascendo de mansinho

Como o menino que um dia vai ser poeta
como a flor que foi colhida no caminho
caminho que não volta pro lugar

VARANDA

Fazer chover não é assim tão fácil

Um dia farei as vezes de um canário
e com a viola no saco
cantarei em outra freguesia

Daí pensei numa pedra
e na diferença inexistente entre nós

Vou sentar na varanda e ouvir o sabiá
para perceber como é que se contrói
um sonho

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

PRESTAÇÃO DE CONTAS

As regras que tenho são suficientes
A minha prestação de contas é para os olhos de dentro

Sábado, 12 de Abril de 2008

CUMPLICIDADE

O vento chovia
para o mesmo lado

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

O pingo de chuva
de tanto barulho
faz tremer o chão

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

dia agitado
o vento bate a porta
e fica trancado

Terça-feira, 1 de Abril de 2008

O SEGREDO

Morre aqui. Tá. Todos esperavam. Esperavam o quê? Sei lá. Esperevam! Essa mania que a gente tem de esperar alguma coisa. Que façam em nosso nome, que nos levem pela mão. Quem espera perde tempo, vai ficando encurvado. Que tempo eu perco se o tempo não me pertence? Ninguém pode perder o que não tem. O tempo só me foi concedido por um tempo determinado. Usufruo dele, mas não o tenho. E precisamos ter o tempo? Que mania de querer ter tudo. Quem quer demais acaba por aprisionar a alma. Deixe que o tempo se vá. O tempo livre é mais amigável. Às vezes eu espero. Morre aqui, hein? Tá.

Domingo, 30 de Março de 2008

SENSO DE DIREÇÃO

As andorinhas da minha rua não sabem exatamente onde fica a linha do Equador. Porque para elas pouco importa que saibam. Não faz diferença. O importante é que sintam.

os urubus
sobrevoam
os olhos da areia

Segunda-feira, 24 de Março de 2008

COISAS PARA DOAÇÃO

Sintomático. Como as lascas que caem de uma palmeira. Um lugar repleto de coisas desnecessárias. Deixo-as e vou embora. Agora. Ando assim e me faço outro. Eu-me-faço-outro. Nada nem ninguém tem noção do que isso quer dizer. Com relação a mim, claro. Porque cada um tem o seu lugar-cheio-de-coisas-para-doação. Cada um é responsável por suas coisas inúteis. O meu lugar virou estoque de uma loja de departamentos. E foi justamente no meu apartamento que me vi nu. E sozinho.

estação vazia
depois do suspiro
o trem apita

flores de plástico
tantas primaveras
as mesmas flores

Domingo, 23 de Março de 2008

E eu que achei
que contar conchas na areia
fosse o mesmo que
catar estrelas no céu

Sexta-feira, 21 de Março de 2008

noite clara
a nuvem que passa
borrou a lua

Domingo, 16 de Março de 2008

O PLANO

O vento vem apoiado nas asas de um beija-flor
a brasa se ilumina com uma rajada de vento

A bala por dentro não tem sentimento
a paz é só uma idéia ultrapassada dos românticos

Pensei num plano para conter as horas
levei tanto tempo que desisti
e agora percebo que nada foi em vão

chuva fininha
passeiam na orla
guarda-chuva e sombrinha

Sexta-feira, 7 de Março de 2008















Joan Miró - Painting - 1936

Quarta-feira, 5 de Março de 2008

AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)

Segunda-feira, 3 de Março de 2008

noite quente
de repente
uma estrela cai

Domingo, 2 de Março de 2008

FORMA : CONTEÚDO

que grandeza
a forma
senão o conteúdo
quem tem
na fórmula
da forma, tudo
não se agüenta
e acaba por deformar
o mundo

Sábado, 1 de Março de 2008

noite imensa
pequeno instante do dia
surge na janela

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

SURTO MUDO

quase sempre
surdo

quase sempre
mudo

quase sempre
surto

depois
volto pro lugar

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

TIM-TIM POR TIM-TIM

Raul devolveu a direção da fábrica ao irmão e mudou-se para um chalé no litoral norte do estado. Ninguém nunca mais soube do paradeiro dele. Já da vida de seu irmão todos sabiam tim-tim por tim-tim.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

QUINTA-FEIRA

Naquela manhã, acordou com o peito apertado. Fez a barba, tomou banho, foi ao desjejum. Mas só depois de avistar a gaiola aberta que começou a sentir-se melhor.

Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

FUNCIONÁRIO DEDICADO

Epaminondas, naquele dia, não foi trabalhar. No seguinte, tampouco. Uma semana depois os colegas da repartição lembraram de sua aposentadoria.

DESPERTAR

Sorriu enquanto olhava para o céu.

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

DESATENÇÃO

Atravessava a rua quando ouviu o buzina. Treze dias depois acordou de um susto. Sonhara que havia sido atropelada. Suspirou aliviada. "Que bom, foi só um sonho".

VALOR

Tudo o que não importa
me diz respeito.

Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

o ruído das ondas
a noite ensina
a silenciar

Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008















As horas não passam quando se está
Longe de casa
Passam tão lentamente de uma hora para outra
Passam tão demasiado tarde que não trazem
Na alma o cheiro do instante que passou

As horas não passam quando se está
Dentro de casa

As cortinas amarelecidas
E o café que já esfriou

Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

Acontece que avaliar uma pessoa pura e simplesmente pela sua aparência é como ver essa pessoa de costas.

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

É

mais do mesmo

mais ou menos
não existe

sim ou não
é não é

o que não pode
poderá assim que quiser

Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Não bato mais na mesma tecla. Talvez tenha sido o estar só. A impiedade. A temporalidade. Que seja. Como os carros lá fora que não se importam com o barulho aqui dentro. Que se dane. Os motoristas atentos ao trânsito não se importam com essa barulheira toda. Nem têm conhecimento. Mas por que se importariam? Há tanto para cada um que o pouco que sobra não se olha para o lado. Não se ouve a melancolia oriunda das paredes. E quem disse que teria de ser diferente?

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Se. Assim. Um pingo de juízo. Nenhum. Sérgio Sampaio me tirou do mesmo. Me quebrou inteiro. Preferi tirar as barbas de molho. Depois só vi dois e dois. Um. E todo horizonte me pertencia. Como num quadro negro riscado a giz. E assim foi. Sendo.

Baú